Durante séculos, a Península Arábica não parecia exactamente o tipo de lugar onde alguém esperaria encontrar uma fortuna enterrada. Havia desertos imensos, oásis, caravanas, cidades comerciais e uma vida moldada pela escassez de água. Depois havia o petróleo, muito quieto, escondido debaixo da terra, sem a menor preocupação em anunciar que estava ali. Até que alguém começou a procurá-lo a sério. E quando finalmente o encontrou, a Arábia Saudita descobriu uma das grandes ironias da História moderna: o país que parecia ter sido construído sobre um enorme problema de água tinha, afinal, uma quantidade extraordinária de riqueza líquida à espera de ser bombeada.
A fundação do Reino e o início da exploração petrolífera
A Arábia Saudita moderna nasceu oficialmente em 1932, quando Abdulaziz Ibn Saud consolidou os territórios que viriam a formar o Reino. O novo Estado precisava de receitas e tinha recursos limitados. A peregrinação a Meca era uma fonte importante de actividade económica, mas estava longe de permitir imaginar o país que viria a surgir algumas décadas depois. Foi nesse contexto que, em 1933, o reino concedeu à Standard Oil of California direitos de exploração petrolífera. A empresa criou a California Arabian Standard Oil Company, conhecida como CASOC, e começou a enviar geólogos para investigar um território que, para quem procurava petróleo, era uma gigantesca pergunta geológica.
As primeiras tentativas não foram propriamente um sucesso de relações públicas para a indústria petrolífera. A perfuração começou em 1935 e os resultados demoraram a aparecer. Poço após poço, a expectativa ia encontrando aquela velha tradição da exploração petrolífera: gastar dinheiro, levantar pó e esperar que a terra finalmente cooperasse. Em 1937, depois de anos de resultados pouco animadores, alguns responsáveis chegaram a considerar que talvez fosse melhor parar. Foi então que o geólogo-chefe Max Steineke insistiu para que continuassem a perfurar. A decisão revelou-se bastante importante.
O marco histórico do Poço Dammam nº 7 e as primeiras exportações
Em 1938, a persistência foi recompensada. O poço Dammam nº 7 começou a produzir petróleo em quantidades comerciais, tornando-se conhecido como o Prosperity Well (Poço da Prosperidade). O petróleo apareceu a cerca de 1.440 metros de profundidade e a produção inicial rapidamente demonstrou que aquilo não era simplesmente uma pequena surpresa geológica. Era o princípio de uma transformação nacional. No ano seguinte, em Maio de 1939, o primeiro carregamento de petróleo bruto saudita foi exportado a partir de Ras Tanura. O rei Abdulaziz esteve presente e abriu pessoalmente a válvula que permitiu carregar o primeiro petroleiro.
A partir daí, a história ganhou velocidade. Novos campos foram descobertos, incluindo Abqaiq, e a exploração expandiu-se rapidamente. Em 1949, a produção de petróleo já tinha atingido cerca de 500 mil barris por dia. Em 1950, foi concluído o Trans-Arabian Pipeline, com 1.212 quilómetros, ligando os campos petrolíferos do leste da Arábia Saudita ao Mediterrâneo. O país que pouco antes dependia de uma economia relativamente limitada passou a ocupar uma posição cada vez mais importante no mercado energético mundial.
A transformação socioeconómica e a criação da infraestrutura moderna
E então veio a parte verdadeiramente extraordinária: o petróleo não se limitou a enriquecer o Estado. Transformou a sociedade. Estradas, aeroportos, hospitais, escolas, cidades, universidades, infra-estruturas e uma enorme capacidade de investimento começaram a surgir à medida que as receitas petrolíferas aumentavam. Dhahran e outras cidades da região oriental tornaram-se centros fundamentais da indústria energética. A economia saudita passou a depender profundamente do petróleo, enquanto o país ganhava uma influência internacional que seria difícil imaginar quando as primeiras equipas de geólogos percorriam o deserto à procura de sinais subterrâneos.
A ironia é que a riqueza estava ali muito antes de alguém saber utilizá-la. O petróleo não apareceu magicamente quando foi descoberto em 1938; estava enterrado havia milhões de anos. O que mudou foi a capacidade humana de encontrá-lo, extraí-lo, transportá-lo e vendê-lo. E, como costuma acontecer quando se encontra uma fortuna gigantesca debaixo do quintal, a importância do quintal aumenta subitamente de forma bastante impressionante.
A geopolítica da energia e os desafios da diversificação econômica
Mas a riqueza petrolífera também trouxe uma dependência que a Arábia Saudita conhece perfeitamente. Durante décadas, petróleo e Estado tornaram-se praticamente inseparáveis. As flutuações do preço do crude passaram a ter consequências enormes para as receitas públicas e para a economia. Ao mesmo tempo, a dimensão das reservas sauditas transformou o país num dos actores centrais do sistema energético internacional. A energia tornou-se não apenas uma questão económica, mas também diplomática e estratégica.
Hoje, a Arábia Saudita continua a possuir algumas das maiores reservas de petróleo do planeta e continua a ser uma potência energética. Mas o país sabe que nenhum recurso natural garante eternamente o futuro. É por isso que, nas últimas décadas, tem procurado diversificar a economia, desenvolver novas indústrias, investir em tecnologia, turismo, infra-estruturas e outros sectores. A grande questão já não é descobrir se existe petróleo debaixo do deserto. Isso ficou resolvedo há muito tempo. A questão é descobrir como construir uma economia que consiga prosperar quando o petróleo deixar de ser a resposta para quase tudo.
E talvez seja essa a maior ironia da história saudita. O deserto parecia condenado pela falta de recursos, até descobrir que estava sentado sobre uma das maiores concentrações de riqueza energética do planeta. O petróleo transformou um reino relativamente pobre numa potência económica e geopolítica. Agora, depois de quase um século a viver com a extraordinária vantagem de ter petróleo debaixo dos pés, a Arábia Saudita enfrenta um desafio quase cómico pela sua dimensão: descobrir como continuar rica quando o mundo começar a pedir-lhe que deixe o petróleo precisamente onde o encontrou.
